Renato Casimiro



Renato Casimiro

Poeta, Editor e Mestre em Letras, Nasceu em outubro de 1958, no Rio de Janeiro, em Vila Isabel.
Como editor, lançou o Jornal O Bonde, a coleção Poesia na UERJ, além de publicações diversas de poesia.

Atualmente, é coordenador de publicações da Editora da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, especializada em títulos de natureza acadêmica.
Coordenando o projeto Poesia na UERJ, editou 23 poetas.
Apesar de atuar no meio editorial a mais de 10 anos, suas poesias, salvo algumas participações em antologias, continuam inéditas:

“ Não tenho pressa em torna-las livros.
Prefiro-as livres, lidas entre amigos nos bares.
Enquanto assim permanecerem, em estado de calmaria, posso continuar retecendo-as, como fossem velas de uma nau fantasma.”



Outros Poetas

Inicial      Renato Casimiro      João Batista     

Janaina da Cunha      Luiza Caetano     

Luis Pimentel       Trovas     





ODE AO NEOLIBERAL PÓS-MODERNO


Não, não se trata de rendição,
Também não é medo
nem dor de um amor desfeito .
O desabamento do muro
onde estava escrito
o nome da primeira namorada .

O muro era escroto
logo ficamos sabendo
e aquela namorada
encaretou
se casou com outro
se encheu de teias varizes estrias
ficou autoritária feia descrente da vida
como todas as outras tias

Não, não foi por desespero da alma
esse abandono
que acomete os náufragos
esse desejo de fuga
na salinidade dos mares
que se, outrora navegados,
abriga os naufrágios do mundo.

Não me venha com a lógica
que a lógica é somente a loucura possível
de crachá e passaporte expedido
pela chefatura de polícia

Nem me apele para a pragmática
a utilidade, a constatação, a retranca
a eficiência de um cabeça de área
a impossibilidade do drible
a proibição da arte da manha
uma manhã que se desperta sobre o corpo da amada

Não!
À merda com essa teoria dos tristes
com a técnica do dedo em riste
a precisão dos relógio parados
a imposição de um norte imantado
a direção de um farol apontando o que ficou pra trás

Esse cinismo adiposo
essa postura destra
essa empáfia de cabelo curto e barba escanhoada
esse sangue desbotado
essa arrogância tingida
essa camisa cor de renúncia
esse sapato engraxado com a gomalina da adesão

Não é somente derrota
não é só traição às metáforas.
Essa paciência para com os coveiros
as tabuletas de não há vagas e é proibido fumar
Não é só cuidado com a saúde do pulmão
Esse telefone aposto para chamar os bombeiros
ao primeiro sinal de chama
Essa certeza de uma nova velha invenção
capaz de curar a morte
sem reinventar a vida

Não é só ilusão de intelectual chinfrim
Não é só delírio de bufão
de um reino tupiniquim
Quer se justificar
que se justifique ao analista de plantão
Quer se consolar
que se console no shopping center do outro quarteirão

Quer se embriagar
que o faça, mas em outra mesa
Pois eu continuo aqui no meu porre
no corre-corre do meu coração
escrevendo mais uma canção.







DIALÉTICA DA AMADA AUSENTE


         A  Moacyr  Félix

Sozinho
no apartamento deformado de ausências
me vejo absurdo diante do absurdo
como quem, a convite da loucura,
se veste com o rigor que a causa exige

Mas talvez eu não esteja só
talvez mais que livros
eletrodomésticos restos de bebida
que desabitam este incômodo
convivam comigo pesadelos
que não são só meus,
e sonhos igualmente não meus somente

Além de mim
existem os homens
e o interminável embate
entre a esperança e a indiferença.
Fazendo história que também é minha,
e que está presente
num livro de poemas
e no alicerce deste prédio de apartamentos.

Não, não estou só.
neste mesmo instante,
esta mesma solidão minha
está sendo vivida por milhões:
nas linhas de montagem
nos hotéis baratos
nos acampamentos de beira de estrada
nos esgotos do capitalismo.

Esta mesma solidão
pequeno-burguesa
funcionária pública
espremida entre contas a pagar
e salário vencido
está sendo vivida entre milhões.

A solidão concreta dos abismos
a insofismável solidão do abandono
que não freqüenta as sessões solenes de posse
que não está entre os verbetes das enciclopédias
ou na contabilidade dos balanços anuais ...

Mas que está no poema
pois embora frágil este coração fraturado
não estou sozinho diante dos homens
não estou ausente da humanidade que me gera.







ALMA GAUCHE


         A  Moacyr  Félix

Não, meu coração não ficou na quebrada
do Yuro trazia um copo
a história do tempo e das guerras
além de fome, sede e febre de amor

Meu coração sobrevivente vive
já não é tão jovem
tínhamos todos 20 anos naquele outubro
o cigarro, essa lua, a bebida ...

Nômade meu coração
se refugia na humanidade dos abismos
por isso fala alto nos bares
pulsa e sinceramente chora.

Meu coração funcionário público
assalariado, brasileiro
carrega todos os sonhos do mundo
e mesmo que desarmado
ama a possibilidade de amar.







ODE AO PÉ-SUJO


Tua sedução é menos de bar
que de imensas catedrais a nos habitar
pois vem do éter
do hálito
do hábito de te freqüentar.

Mesmo em tempos de falta de tempo
de deselegância e parcos salários
um botequim não é nunca
só para se embriagar

pois além do vício
do vento
da vida e da chuva
existe o que em ti
é somente verso, música
horas passadas em meditação profunda

seus vazios
vasos partidos
amores perdidos
entre mesas balcão e odores
e restos de tira-gostos amargos nos dias difíceis
Sugerem a bêbados
um purgatório provável
de francos sorrisos largos

Suas paredes mal revestidas
de rios e mares e bebidas baratas
exercem sobre os fregueses
desejos de gozos e
doses
e goles
e guizos
que guiam à ternura plácida de um copo







MANHÃ DE OUTUBRO


Ainda que este azul que me excita para a vida
Traga em si também a morte
Eu te desejo
Manhã de outubro

Seu azular, o instante que torna rubro este coração
Não é simplesmente sol, brisa, álcool
Ou solidão na noite
Pois o amor já não somente urge,
Espera entre

O mar e a pedra
E os odores de suas pétalas
Outubro derrotou o tédio, o cinza, a náusea
E a indiferença dos homens

E mesmo a intransigência das estações
As horas passadas ou perdidas
Seria capaz de deter a flor
Que brota em plena a pressa, o pânico
E os planos do Planalto Central do Brasil.








SONETO DO AMOR DESFEITO


E o amor tornou-se impossível:
Permanecerá vivo, no entanto,
Não como gesto imprevisível.
Será silêncio n’algum recanto.

Fosse gasto, prosseguiria
Como armadilhas do desamor.
Teria chance houvesse um guia.
Adormeceria não fosse amor.

Por isso parto, o coração partido,
Antes de um fim que se anuncia
Pois de amar tanto tenho padecido
Que de ilusão tenho sobrevivido.








UMA GARRAFA AO MAR


Outrora fiz-me parecer o que de mim esperavam
assim procedendo julgava ser suficiente para não ser
Sequer quando de soslaio desdenhava o que de mim queriam
Ou o que a mim se fazia ofertar em meu degredo

Ia às compras tal como todos
Tributável e inexoravelmente rendido pagava as contas que inventavam,
E na falta delas, entediava-me num expediente de inutilidades
resistente como um malmequer de generosas pétalas a dizer “te quero”

Contudo, meu fingimento idílico não era o bastante
Queriam de mim a crença no que é permitido
a deserção ao sonho
e a esperança perseverante no porvir
Hoje sobrevivo fiel e infame tal um mambembe náufrago
que na ausência do público ensaia seu número por temer esquecê-lo

A galhofa é o melhor de mim
E se lamento não serem ouvidos os meus versos
O mesmo não poderei fazer
quando a brisa outonal sepultar, por fim
a estupidez da crença nessa nau fantasma
trazendo o canto que soa ébrio nos bares debruçados sobre o penhasco.








DESPERTAR


 

                         
A Tania Salomé  

Os riscos dos rastros que a esperança deixou em meu corpo
trazem-me a certeza de que a felicidade pode ter vários rostos
mesmo este que agora do espelho me espreita

A camisa do dia anterior denuncia o inesperado
e o insistente amargo da boca cede lugar a manhã
que desperta sonolenta do fundo do tubo de creme dental

Estou apto ao beijo que se amalgama no aroma de café que invade este dia
o desalinho dos cabelos e o desconhecimento dos segredos da casa
não impedem a intimidade entre os corpos

Lá fora arde a cidade em plena a algazarra da estação
um sol que tinge de luz as cicatrizes da pele
enquanto a chuva inunda a secura de um sobrevivente coração
que não mais teme do amor seu incerto sabor de sal ou mel.

                                                       ( Dez/99 )




TRATADO DE RENDIÇÃO À GINOFAGIA


Se fosseis apenas uma
Seria fácil domesticar os impulsos
Evitar os riscos, os vexames
Os reclames deste frágil coração
Fatigado de dentre tantas
Ter que escolher uma somente!

Se fosseis apenas belas
Serieis feitas somente para se contemplar
Como é feita uma inatingível lua
Uma capa de revista
Ipanema vista do Arpoador
A vida, mas toda a vida, em rotação perpétua

Se fosseis somente e para sempre jovens:
Um botão de flor estilhado à terra
Uma par de seios impunes ao sutiã
Uma manhã de maio
Um sorriso franco
Um beijo em segredo

Mas não! Há em voz algo em que o Tempo,
Essa matéria prima de banqueiros e fabricantes de cosméticos,
Esquivou-se da morbidez divina para esculpir sua arte
Tal uma sinfonia que para sempre inacabada
Busca do belo a sua dialética

Mas ainda que fosses somente mistério,
O entardecer e todo um imponderável crepuscular
Seria mister observar-vos qual um bizarro basbaque,
Estudar-vos percorrendo os volumes de vossas bibliotecas
E preservar-vos do pó, do toque e do gozo
Do ósculo e dos olhares mundanos.

E se fosseis apenas sábias
Atléticas, aristocráticas e poderosas,
Conservadas eternas em ácido glicólico
Adornadas em vestes, ouro e jóias
Embebidas no mais nobre perfume
Retidas na retidão de um recinto burguês ?

Ora! Seríamos apenas discípulos
Escravos submissos, punheteiros
a admirar vossas roupas
Vosso brilho, vosso aroma
Vossas bundas aerobicamente empinadas
Imunes às gloriosas celulites
E como paulistas diríamos: “ Que máquina, meu!”

Mas sois mais
Sois muito
Sois muito mais
Sois Mulher
E diante de vós
Só nos resta a rendição
A paixão
A sarjeta...



Inicial      Renato Casimiro      João Batista      Janaina da Cunha      Luiza Caetano      Luis Pimentel       Trovas